Belo Monte aumentou emissões de gases-estufa no Xingu em cerca de 3 vezes, diz estudo

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Por Folha de São Paulo – Cercada de críticas desde o início do seu projeto, a usina hidrelétrica de Belo Monte gerou um aumento de até três vezes nas emissões de gases-estufa na região de Volta Grande do Xingu, no Pará. O cálculo é resultado de um estudo, publicado nesta sexta (25) na revista Science Advances, conduzido por pesquisadores da USP, da Universidade de Linköping, na Suécia, da UFPA (Universidade Federal do Pará) e da Universidade de Washington, em Seattle, nos EUA.

Esse aumento de emissões de gases —mais especificamente de metano (CH4)— é resultado, principalmente, da decomposição de matéria orgânica em áreas inundadas. Os cientistas afirmam ter observado que os maiores níveis de liberação de gases ocorrem em áreas rasas de inundação.

O achado é importante, segundo os pesquisadores, porque reforça que há diferenças de emissões em áreas afetadas por usinas hidrelétricas em florestas tropicais. As áreas marginais de inundação por exemplo, podem ser responsáveis por cerca de 45% das emissões de gases-estufa desse tipo de projeto.

A pesquisa também olhou para o oxigênio dissolvido na água, a velocidade do vento, o pH da água e a temperatura local e na superfície da água. Esses parâmetros apresentaram pouca variação, apesar de as temperaturas pós-inundação serem ligeiramente maiores nos períodos de menor fluxo de água e o nível de oxigênio dissolvido na água ser inferior nas áreas inundadas.

Os pesquisadores obtiveram dados de 23 pontos nos reservatórios da usina de Belo Monte e no curso do rio Xingu depois das barragens. Eles usaram informações previamente coletadas na região em 2012 e fizeram coletas em 2014 e, após a inundação, em 2016 e 2017.

Os dados encontrados são importantes para as discussões de projetos de instalação de usinas hidrelétricas na Amazônia. Belo Monte foi, em tese, desenhada para ter menor impacto ambiental. Para isso, foi feita com a tecnologia de obtenção de energia a fio d’água, o que faz com que a área inundada seja menor, mas, ao mesmo tempo, deixa a usina mais vulnerável aos fluxos de cheia e seca na região.

“Dada a intensidade de emissões de carbono também para reservatórios de última geração, como Belo Monte, em combinação com todos os outros custos sociais e ambientais dos reservatórios amazônicos, instamos os tomadores de decisão a considerar alternativas de geração de energia que evitem o represamento de grandes rios e a criação de novas áreas alagadas nessa região”, conclui o artigo.

Outro lado

A Norte Energia afirmou que “o estudo indicou que os reservatórios de Belo Monte apresentaram a maior geração de energia por área inundada e o menor fator de emissão (kg CO eq MWh) entre 18 reservatórios avaliados por modelos preditivos”.

“Ainda segundo o estudo, as emissões de gases-estufa de vários reservatórios da Amazônia são comparáveis às de usinas baseadas em combustíveis fósseis. O mesmo estudo afirma que o potencial de aquecimento global dos reservatórios de Belo Monte durante os primeiros anos de operação é comparável àqueles relacionados a outras fontes renováveis, como fotovoltaica e eólica”.

A Norte Energia acrescenta que as emissões de gases do efeito estufa por empreendimentos hidrelétricos são previstas e, no caso de Belo Monte, foram consideradas no Estudo de Impacto Ambiental, sendo mitigadas e compensadas por meio de ações como a recuperação de Áreas de Preservação Permanente (APPs) e destinação de recursos da ordem de R$ 131 milhões para proteção de Unidades de Conservação.

“Vale destacar que, em maio de 2019, a Norte Energia iniciou um projeto para desenvolver metodologia de cálculo de emissões líquidas de gases de efeito estufa de reservatórios hidrelétricos, em parceria com a Fundação Coordenação de Projetos, Pesquisas e Estudos Tecnológicos, via Universidade Federal do Rio de Janeiro. Tal projeto contribuirá com o Inventário de Emissões de Gases de Efeito Estufa que a empresa realiza em 2021.”

Histórico e Fluxo

O projeto da usina, que é uma das maiores do mundo, começou a sair do papel sob os governos Lula e Dilma Rousseff (PT) e foi alvo de críticas desde o seu início. Especialistas já apontavam o custo socioambiental da obra diante dos problemas que a usina acabaria enfrentando pelos períodos de seca e cheia na região.

Uma das críticas era que a usina conseguiria produzir, por ano, só uma parcela da sua capacidade instalada, exatamente por não contar com um grande reservatório de água.

Quantidades mínimas de vazão de água na região foram determinadas para tentar manter o equilíbrio socioambiental —numa região rica em biodiversidade—, o que não impediu, porém, impactos às comunidades tradicionais do Xingu.

No fim do ano passado, a vazão mínima da usina voltou ao foco da discussão. O Ibama alertou que o fluxo de água deveria ser ampliado devido aos impactos, maiores do que os previstos, sobre o ambiente e a população da região.

Com esse aumento de vazão —que ocorreu no início de 2021—, mais água foi liberada para a região da Volta Grande. A consequência é que Belo Monte capta menos água e, assim, produz menos energia, a ponto de potencialmente se tornar inviável caso a necessidade de liberação maior de água se torne definitiva.

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