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Ciência e tradição unem-se contra usina de Belo Monte

Na última segunda, dia 7, a maloca moderna pensada por Darcy Ribeiro, na UNB, transformou-se em um parlatório do movimento indígena contra a construção da usina de Belo Monte.

Kaiapós, jurunas, araras, terenas, tukanos, macuxis, guajararás e kaigongs uniram-se em coro para mostrar aos brancos o temor que a construção das barragens ao longo do rio Xingu provoca. Índios, autoridades, especialistas e ativistas levarão até o Congresso Nacional um abaixo-assinado com mais de 500 mil assinaturas contra a construção da hidrelétrica nesta terça.

“Se a Belo Monte for construída, os indígenas e as florestas serão prejudicados. Não estamos acostumados a criar bichos. Comemos o que há na mata”, disse Raoni Metyktire, líder kaiapó. Além da preocupação com a alimentação, o cacique reforça outro problema: a falta de terras. “Não tem mais espaço. Vocês já ocuparam tudo”.

Para o antropólogo Ricardo Verdum, do Instituto de Estudos Socioeconômicos (INESC), outras formas de geração de energia deveriam ser cogitadas pelo governo. “Existem alternativas eólicas e solares que podem suprir essa necessidade com baixo custo. O Brasil possui condições técnicas para fazer esse serviço de outra maneira”. O antropólogo afirma que é preciso criar um grupo de trabalho que posso estudar novas alternativas para geração de energia. “Sempre é possível inverter uma decisão política”, acredita.

As discussões do seminário foram marcadas pelo consenso de que o andamento do projeto de Belo Monte não é democrático e que falta informação sobre o que acontecerá, de fato, com a realização da obra. A subprocuradora-geral da República, Deborah Duprat, afirmou que as quatro audiências públicas que trataram do caso não apresentaram estudos suficientes para esclarecer as consequências da construção das barragens no rio Xingu. “Se os povos indígenas não têm poder de veto, é preciso que, ao desqualificar seus argumentos contra Belo Monte, sejam apresentadas razões claras e fundamentadas”, diz.

Segundo nota da Associação Brasileira de Antropologia (ABA), além de inundar uma área de mais de 600 km², a obra atrairá uma população estimada em 100 mil pessoas e causará o deslocamento de cerca de 40 mil. Na área, residem os povos indígenas Arara, Juruna, Xikrin e milhares de famílias ribeirinhas, indígenas e não-indígenas.

A subprocuradora defendeu que uma fonte de energia que cause tantos impactos não pode ser considerada limpa. “Como pode ser limpo um empreendimento que provoca degradação, fim de relações de compadrio e desestrutura das relações entre os atingidos?”, questionou. “Considerar essa energia limpa é desconsiderar os impactos da construção”.

Gustavo Lins Ribeiro, diretor do Instituto de Ciências Sociais da UnB e membro da ABA, destacou a prostituição que deve ocorrer a partir da chegada dos funcionários da obra e possíveis ataques da massa de homens às mulheres da região. O professor chamou a atenção para as cifras bilionárias do empreendimento, que chamou de “Belo Monstro”. “O que está sendo acobertado sob o nome de desenvolvimento é a repartição de muito poder, envolvendo muito dinheiro, cerca de 20 a 30 bilhões de reais”, afirma. “Belo Monte é um desastre ambiental e social anunciado”.

FUNAI
Durante a exposição dos palestrantes, a plateia gritou palavras de ordem contra o presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai), Márcio Meira, que não esteve presente no seminário. “Vamos fazer ouvir nossas vozes”, disse Carlos Pankararu, indígena de Pernambuco. “O presidente da Funai é contra a própria Funai”. Pankararu convocou os presentes para montar um novo acampamento na Esplanada dos Ministérios, como o que ocorreu em 2010 pela revogação do Decreto Presidencial 7.056/09 e pela destituição de Meira do cargo.

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