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Triste Monte

Belo Monte é o florão do Programa de Aceleração do Crescimento. A usina será construída no Estado do Pará, numa região do rio Xingu chamada Volta Grande, a um custo orçado em 30 bilhões (dólares ou reais, faz alguma diferença?) quase totalmente financiados pelo BNDES, de mãe pra filho empreiteiro (O Globo, Fernand Alphen, 13/02/2011).
Apesar de controvérsias técnicas que dão conta de uma obra cujo potencial é hiperdimensionado em função da sazonalidade do rio, apesar de controvérsias sociais que dão conta de condicionantes impostas pelo IBAMA e pela FUNAI que não foram atendidas na pré-licença de construção do canteiro, apesar de controvérsias ambientais que dão conta do impacto na vazão do rio que irá comprometer espécies e populações, apesar de controvérsias econômicas que dão conta da matriz energética brasileira que privilegiará, nesse caso, indústrias consumidoras de muita energia (alumínio por exemplo) e que o mundo socioambientalmente consciente refuga para a periferia do mundo (nós), apesar de uma lista infindável de mais apesares, no apagar das luzes entre governos, na carona obscura de desastres midiáticos de grandes proporções, depois de demissões sucessivas de técnicos que se opunham à construção, Belo Monte vai ser construída.

Depois de 30 anos, a ganância, a miopia, o imediatismo e o poder sem controle vencem. O Brasil precisava de dinheiro internacional para construir Belo Monte há 30 anos. Mas o dinheiro foi negado, à época, por excesso de apesares pairando sobre a obra. Agora somos ricos, não precisamos mais da grana de ninguém, a gente tem soberania e aqui, no Brasil, é assim: manda quem pode; quem não pode se sacode.

Mas o que é Belo Monte? Mais uma hidrelétrica, dentro do programa da construção de mais 60 que irão represar todos os rios da Amazônia no futuro. Depois, só vai faltar azulejar a floresta e ligar o ar-condicionado.
Mas se não acreditarmos no aquecimento global, se não acreditarmos nos impactos negativos da emissão de gás metano na atmosfera produzido pelo alagamento de florestas, se não acreditarmos que 60% do território brasileiro, a Amazônia, é a maior reserva de água potável do mundo e que essa reserva é ecologicamente dependente da floresta, se não acreditarmos que a política brasileira é financiada pelas empreiteiras, se acreditarmos que índio é quase bicho e que a gente que mora longe, lá na Amazônia, é menos gente que a gente, a gente deveria pelo menos se perguntar por que diabos o Egito interessa muito mais a gente do que a nossa terra? Por que a bomba relógio no mundo árabe nos toca mais do que a que enterraram sob o nosso nariz?

O Egito Antigo foi uma das civilizações mais prósperas e desenvolvidas do mundo antigo. Construíram obras faraônicas para perpetuar seu brilho por milenares. O que aconteceu com o fausto de outrora?

As pirâmides estão hoje situadas numa abjeta periferia do Cairo. Bombas de um passado remoto. Quem dera fosse por isso que a queda de Mubarak tanto nos fascina. Quem dera o Egito de hoje fosse a visão fantasmagórica do nosso futuro com esse Triste Monte que iremos construir.

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