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James Cameron leva Arnold Schwarzenegger para a Amazônia e critica a construção de Belo Monte, no rio Xingu

O cineasta James Cameron criticou a construção do Complexo Hidrelétrico de Belo Monte no rio Xingu, afirmando que a obra representa uma “crise de direitos humanos” para o Brasil. Cameron fez um apelo ao governo federal e ao público para usar esta crise como uma oportunidade que leve o país rumo a alternativas energéticas mais ecológicas.

A crítica foi feita durante uma coletiva de imprensa realizada ontem, em Manaus, e que contou com a presença de lideranças indígenas da Amazônia.  Cameron, que visitou o Xingu três vezes no ano passado, retornou esta semana à região da Volta Grande, local proposto para a construção de Belo Monte, junto com o ator Arnold Schwarzenegger, ex-governador da Califórnia.

Cameron participou esta semana do II Fórum Internacional de Sustentabilidade em Manaus, onde dividiu o palco com Schwarzenegger em uma dinâmica discussão sobre os desafios que os países encontram quando fazem a transição do velho modelo de energia, exemplificado pela construção de grandes hidrelétricas na Amazônia, para um novo modelo, baseado em eficiência energética e fontes alternativas, como a solar e a eólica. O cineasta salientou a experiência do estado americano da Califórnia, sob o comando de Schwarzenegger, que estimulou o crescimento de empregos verdes e do uso da energia solar e eólica.

A coletiva de imprensa contou com a presença do lendário cacique Kayapó Raoni Metuktire; da liderança indígena Sheyla Juruna, do Movimento Xingu Vivo Para Sempre; e dos pesquisadores Philip Fearnside, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e Francisco Hernandez, do Instituto de Eletrotécnica e Energia da Universidade de São Paulo (IEE-USP).

“O governo brasileiro não está aberto ao diálogo com seu povo”, disse Sheyla Juruna, liderança do povo indígena Juruna, que será diretamente afetado pela construção de Belo Monte. “Ele vem violando paulatinamente suas próprias leis e a Constituição, especialmente em relação aos direitos de consulta prévia, livre e informada dos povos indígenas em relação aos impactos de Belo Monte e outros mega-projetos”.

O cacique Kayapó Raoni Metuktire disse que seu povo está realizando assembleias e se preparando para uma campanha de resistência para parar a obra. “A presidente Dilma e o presidente Lula antes dela mostraram completa falta de compaixão ao sofrimento que a inundação das áreas de floresta e o deslocamento que o projeto vai trazer para meu povo e outras milhares de pessoas do Xingu”.

“O governo vem ignorando os pareceres da Justiça contra a ilegalidade da construção dessas barragens na Amazônia. Por isso, nós também vamos passar por cima do governo e da Justiça e organizar uma ampla aliança de povos indígenas e não-indígenas, ONGs e governos para apelar diretamente à opinião pública em busca de apoio”, disse Raoni.

“Ao ouvir as pessoas que serão diretamente afetadas pela obra e os especialistas, fica claro que Belo Monte é um projeto concebido de forma equivocada não apenas em termos de viabilidade econômica, mas especialmente pela falta de transparência, participação e inclusão dos povos indígenas e das comunidades locais”, disse Cameron.

“Torna-se urgente aumentar a conscientização no Brasil de que Belo Monte não é uma solução para a demanda energética do país – dada a sua falta de viabilidade econômica e questões morais e éticas, sem falar no enorme ônus para os povos indígenas e outros habitantes do Xingu. Os contribuintes brasileiros poderiam economizar bilhões cancelando a obra e direcionando estes mesmos investimentos em fontes genuinamente renováveis de energia”.

“Enfrentar os desafios de criar um futuro energético verdadeiramente verde exige que todos nós aprendamos uns com os outros – os Estados Unidos com o Brasil e o Brasil com exemplos como a Califórnia. Arnold Schwarzenegger falou aqui sobre como este novo caminho rumo a um futuro de energia verde criou mais empregos na Califórnia do que a indústria tradicional e o setor de serviços. O Brasil tem o potencial de ser um líder mundial na promoção da energia sustentável em escala global”, concluiu o cineasta.

“Precisamos desfazer o mito de que grandes barragens representam energia limpa e renovável, considerando suas enormes consequências sociais e ambientais”, disse Francisco Hernandez, especialista da área de política energética da USP. “O Brasil não está buscando limpar e diversificar sua matriz energética. Ao invés disso, está desenvolvendo apenas uma única e gigantesca fonte apesar de todos os problemas amplamente apontados que estes projetos trazem”.

Estimado atualmente em 17 bilhões de dólares, o Complexo Hidrelétrico de Belo Monte é propagandeado pelo governo como a terceira maior hidrelétrica do mundo. Se construída, a obra vai desviar quase que totalmente o fluxo do rio Xingu ao longo de quase 100 quilômetros da região conhecida como Volta Grande. Seus reservatórios vão inundar mais de 1,2 mil hectares de florestas e assentamentos, deslocando entre 20 mil e 40 mil pessoas e gerando vastas quantidades de metano. Uma licença de instalação parcial foi emitida para a o projeto no final de janeiro apesar do consórcio responsável pela obra não ter cumprido a maioria das condicionantes estabelecidas pelo Ibama e pela Funai.

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