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Pescadora tenta evitar fim da captura de peixes ornamentais no rio Xingu

A decisão de enfrentar o consórcio Norte Energia e pedir a paralisação das obras de Belo Monte, maior empreendimento do setor elétrico em andamento no país, partiu da pescadora Marise Rocha de Souza, que desde 1988 vive da captura de peixes ornamentais na Volta Grande do Xingu, em Altamira (PA) ( Valor Econômico, 30-09-2011).

Marise é presidente da Associação dos Criadores e Exportadores de Peixes Ornamentais de Altamira (Acepoat), que esta semana ajuizou ação na 9ª Vara Federal, especializada no julgamento de causas ambientais. A ação foi acatada pela Justiça Federal, que pediu a interrupção das obras que pudessem interferir no rio. Para efeitos práticos, nada mudou na obra, uma vez que a Norte Energia trabalha na abertura de vias e construção de canteiros. A disposição de Marise, no entanto, dá uma ideia dos obstáculos que Belo Monte ainda tem pela frente até que comece a transmitir energia de suas turbinas de 11.233 megawatts (MW).

“Criei meus três filhos com os peixes ornamentais do Xingu. Hoje cerca de 2 mil pessoas vivem dessa atividade na região. Não dá para simplesmente chegar e acabar com tudo”, disse Marise ao Valor.

A Acepoat reúne 25 empresas da região que vendem peixes no país e no exterior. O local de coleta dos peixes ornamentais é feito na chamada Volta Grande do Xingu, área de 100 quilômetros de extensão que, após a conclusão da usina, ficará com a cota mínima de água, o que atualmente ocorre apenas nos períodos de seca. “Vai ficar inviável para nós, teremos que fechar as portas”, diz Marise.

A pescadora afirma que, desde o começo do ano, tem conversado com a Norte Energia para negociar uma solução, mas a proposta do consórcio não tem agradado os pescadores. “Eles sugerem montar um laboratório para reprodução de peixes, mas os compradores não querem peixe de laboratório, querem o peixe do rio, que tem tempo de vida maior, coloração natural, é totalmente diferente.”

Marise afirma que consegue faturar até R$ 20 mil por mês com o comércio dos peixes ornamentais do Xingu, vendendo apenas para o mercado brasileiro. “Não é o caso de dizer que estamos contra a barragem. Se não tem outro jeito, terei de mudar de ramo, só que é preciso ter alternativa. O que eles propuseram até agora não funciona, não é viável”, diz.

Na Norte Energia, a rotina segue. Até o fechamento desta edição, a empresa informava que não havia sido notificada formalmente pela Justiça Federal. A multa fixada, caso a liminar seja descumprida, é de R$ 200 mil por dia.

Já são 2 mil homens em campo, podendo chegar a 7 mil trabalhadores até dezembro. O custo socioambiental da obra, estimado em R$ 3,7 bilhões, inclui um conjunto de ações para minimizar o impacto na pesca de ribeirinhos e indígenas. Entre os locais que serão afetados pela construção da hidrelétrica está a vila de pescadores de Santo Antônio, que será inteiramente removida. O povoado localizado entre a rodovia Transamazônica e o rio Xingu fica muito próximo do local onde será instalada a casa de força principal da usina. Pelos números oficiais do governo, há 105 casas e 35 famílias vivendo na vila.

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