
Arquiteto de formação, engenheiro por competência e convicção, Célio Bermann integrou com firmeza, doçura e dedicação o chamado “Painel de Especialistas”, uma denominação inventada pelo jornalista Glenn Switkes – coordenador da ONG International Rivers – para um grupo de cientistas que, em conjunto com o Movimento Xingu Vivo para Sempre, se organizou para estudar e debater a catástrofe de Belo Monte. Desde então, são 17 anos de testemunho de uma tragédia, tecnicamente, não apenas sabida – planejada. O grupo, como tal, foi formado em 2009, ano em que foram divulgados os Estudos de Impacto Ambiental do atual empreendimento hidrelétrico. Como pesquisadores, muitos de nós, acadêmicos e não acadêmicos, já estudávamos o projeto desde 1988, época em que foi lançado o então denominado Complexo Hidrelétrico de Altamira (Babaquara/Cararaô), e a Comissão Pró-Índio de São Paulo (CPI-SP) organizou a publicação “As Hidrelétricas do Xingu e os Povos Indígenas”. Em 2004, o embrião do projeto posto em prática em 2009 foi também analisado e criticado por alguns de nós, na publicação “Tenotã-mõ” da International Rivers Network, em conjunto com o Movimento pelo Desenvolvimento da Transamazônica e do Xingu, a CPI-SP, o ISA e a FASE. Dos grandes lagos planejados no primeiro projeto à grande seca planejada e executada no segundo, uma constante: o descaso pelas vidas e a negação das análises técnico-científicas.
Todos e todas que conhecem um pouco desta história sabiam desde sempre da complexidade da vazão do rio Xingu, variando e expressando sua força desde 700 a 28.000 m³/s, que desfilava – naturalmente – por um relevo multimilenar. Sabiam também da diversidade sociocultural que com ambos interagia. Interação que favoreceu a construção de um dos maiores espetáculos de biodiversidade da Amazônia, concentrado ali nos quase 130 km da Volta Grande do Xingu. Interação rompida! Estrangulada por um paredão de 3500 metros que a sua montante gerou um lago disforme de 500 km², margeado por uma artificial área de preservação permanente (APP), que tomou o lugar do rio pai e amigo dos ribeirinhos e da beira e ilhas – território de indígenas e não indígenas. A jusante, o paredão frio e impiedoso seguiu, sepultando igarapés e corredeiras, separando povos, peixes, pessoas, tracajás, guaribas, castanheiras, pacus e sarobais, macacos prego, onças, araras, tucanos, gentes, acaris, acaris zebra, seres … muitos seres, visíveis, invisíveis – sensíveis!
Célio Bermann lutou! Avisou que o hidrograma do Xingu era incompatível com a potência planejada! Avisou que turbinas poderiam ficar inoperantes durante quatro meses do ano! Demonstrou claramente a provável catástrofe hoje confirmada: a incompatível vida da e na Volta Grande com o hidrograma que privilegia a geração de energia.
O Xingu chorou mais uma vez, já havia chorado por Oswaldo Sevá e Glenn Switkes. E nós choramos novamente, também, não apenas pelo competente e sério pesquisador, pelo homem que lutou por energia e água LIMPAS PARA A VIDA, mas também pelo amigo gentil e doce que muito nos ensinou.
Adeus, nosso amigo Célio Bermann!
Painel de Especialistas e Movimento Xingu Vivo para Sempre
01 de janeiro de 2026

