
No final do mês de janeiro, movimentos e organizações sociais e ambientais de Altamira e região, além de professores, pesquisadores e do Bispo Emérito do Xingu, Dom Erwin Kräutler, se reuniram na sede do Movimento Xingu Vivo para Sempre para fazer um diagnóstico da situação política, social e ambiental do Médio Xingu, e dos desafios das lutas para o ano de 2026.
Apesar das preocupações com os crescentes efeitos negativos de Belo Monte sobre as comunidades ribeirinhas – mas também sobre a população urbana, afetada pela violência e pela precarização das periferias -, o foco principal foi o projeto de mineração da empresa canadense Belo Sun, que quer instalar a maior mina de ouro a céu aberto na Volta Grande do Xingu, com impactos catastróficos, segundo os presentes.
Belo Sun enfrenta uma série de obstáculos legais ao seu projeto, incluindo a suspensão da licença de instalação por quase nove anos já, ações (avançadas) na Justiça que questionam a cessão da área para a implementação do projeto, um processo no Tribunal de Contas da União, além de decisões que obrigam o Estado (federal e estadual, além das instâncias licenciadoras) a realizar a Consulta Prévia, Livre e Informada das populações indígenas (aldeadas e não aldeadas) e tradicionais ameaçadas pela mineradora antes de qualquer andamento do projeto. Mas isso não tem impedido a empresa de assediar as comunidades, seja de forma violenta (com seguranças armados), seja buscando cooptar moradores individualmente, denunciaram as lideranças sociais.
Neste cenário, os movimentos, organizações e pesquisadores lançaram um manifesto e assumiram o compromisso de reforçar os debates públicos sobre as ameaças da mineradora à região. Leia abaixo
CARTA-MANIFESTO DAS ORGANIZAÇÕES E MOVIMENTOS SOCIAIS DA REGIÃO DA TRANSAMAZÔNICA E XINGU CONTRA A MINERADORA BELO SUN
Os inescrupulosos movimentam-se de forma sorrateira, nas sombras, ocultos e com muita astúcia para não serem notados. Em 2014, um ano antes da Usina Hidrelétrica de Belo Monte receber Licença de Operação, a Mineradora Belo Sun recebia uma Licença Prévia da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade do Pará (SEMAS). Em 2017, ano em que os impactos ambientais de Belo Monte escalavam de forma geométrica, a SEMAS concedeu a Licença de Instalação (LI) para Belo Sun. Porém, o Ministério Público Federal (MPF) questionou esta concessão e a Justiça Federal suspendeu a licença pela ausência do estudo de componente indígena e da consulta prévia, livre e informada aos povos indígenas, instrumento que exige que este tipo de empreendimento somente seja implantado com a consulta aos afetados.
A resposta de Belo Sun veio com uma suposta “consulta” aos povos indígenas, processo recentemente desmentido por eles; com a violência armada de uma empresa de segurança patrimonial contratada pela mineradora, alvo de investigação e denúncia da Defensoria Pública do Pará; e com ameaças e processos contra lideranças de organizações e movimentos sociais que apontavam os desmandos e os impactos negativos que a implantação deste projeto de mineração já estava causando na Volta Grande do Xingu, antes mesmo de começar a explorar o ouro pretendido. Observa-se que o último processo contra essas lideranças, impetrado por Belo Sun, foi arquivado pela justiça por diversas falhas e inconsistências jurídicas.
Mesmo com a Licença de Instalação suspensa, Belo Sun continua se articulando politicamente, buscando aliados nos poderes municipal, estadual e federal. Em 2021, conseguiu junto ao INCRA a permissão de uso de uma grande área de terras públicas, incluindo um pedaço do PA Ressaca. No Contrato de Concessão de Uso assinado entre a mineradora e o INCRA em 2021, estipula-se uma duração de 20 anos para a exploração minerária, prazo que pode ser prorrogado. A meta de extração é de 74 toneladas de ouro nas primeiras duas décadas de operação. A empresa prevê a construção de uma barragem de rejeitos com capacidade para 35 milhões de metros cúbicos – volume bem próximo da barragem que se rompeu em Mariana, Minas Gerais, em 2015.
O exemplo de Belo Monte, que deixou para o povo e para o nosso rio somente morte e destruição, já basta para entender que o Projeto Volta Grande, da Mineradora Belo Sun, vai aumentar ainda mais o sofrimento e a dor de quem mora na Volta Grande do Xingu. É por este motivo que as organizações e os movimentos sociais da região precisam unir-se para fazer frente a mais esta ameaça. Assinamos esta Carta-Manifesto e convidamos outros coletivos, indivíduos, lutadoras e lutadores sociais, a somar conosco em defesa da Volta Grande e do Rio Xingu, e contra a destruição que a empresa Belo Sun quer fazer em nosso rio, em nossa floresta e em nossas vidas.
Altamira/PA, 23 de janeiro de 2026
ASSINAM:
Movimento Xingu Vivo para Sempre – MXVPS
Instituto Socioambiental- ISA
CPT Anapu
Irmãs de Notre Dame de Namur de Anapu
Conselho Ribeirinho do Reservatório da UHE Belo Monte
Coletivo de Mulheres do Xingu
Associação Ação e Atitude
Articulação de Mulheres de Altamira e Região – AMAR
Projeto Aldeias
Sindicato dos Trabalhadores Rurais, Agricultores e Agriculturas Familiares do Município de Altamira – STTR
Movimento de Mulheres Trabalhadoras de Altamira Campo e Cidade
Comitê em Defesa da Vida das Crianças Altamirenses
Irmãs Franciscanas de Ingolstadt
Associação de Mulheres Ribeirinhas do Xingu
SINTEP Subsede Altamira
COMUNEMA – Coletivo de Mulheres Negras Maria Maria
CFNTX – Centros de Formação da/o Negra/o da Trasamazonica Xingu
Coletivo Lesbitrans Amazônico
FOCLIMAX – Fórum de Lideranças Comunitária do Médio Xingu
SINTEPP Regional Xingu
Conselho Missionário Indigenista – CIMI Altamira
Fórum da Amazônia Oriental (FAOR)
Instituto Amazônia Solidária (IEMAS)
Irmãs Franciscanas da Penitencia e Caridade Cristã
Dom Erwin Krautler
Rodolfo Salm- Professor
Maria Ivonete Coutinho- Professora
Ana Paula Santos Sousa – Professora

