
Por Diogo Cabral* – Entre 2019 e 2025, o Brasil perdeu mais de 10,9 milhões de hectares de vegetação nativa, e a agropecuária foi o vetor de 97% dessa perda (MapBiomas, 2026). No mesmo período, a Comissão Pastoral da Terra (CPT) registrou, todos os anos, mais de 1.500 conflitos no campo. Em 2025 foram 1.593, com 26 assassinatos, o dobro do ano anterior (CPT, 2026a). No Maranhão, somam-se a eles 608 notificações de pulverização de agrotóxicos sobre comunidades entre 2024 e junho de 2026 (Muniz et al., 2026). Este texto examina se essas duas séries, somadas à expansão da fronteira do agronegócio, guardam relação espacial com o voto em Flávio Bolsonaro (PL) no primeiro turno da eleição presidencial de 4 de outubro de 2026.
A hipótese de trabalho é que o voto no candidato do bolsonarismo não se distribui ao acaso no território rural. Ele se adensa nas frentes de expansão, onde terra pública, floresta e Cerrado são convertidos em ativo privado, e perde força nos territórios de povos e comunidades tradicionais, alvo preferencial da violência. O enquadramento é o da acumulação por espoliação (Harvey, 2004), adotado na pesquisa de mestrado do autor sobre a pulverização aérea de agrotóxicos na comunidade Carrancas, em Buriti (MA) (Cabral, 2023): a fronteira avança expropriando, e a expropriação precisa de sustentação política.
Método e fontes
Trata-se de análise espacial exploratória, feita por sobreposição cartográfica. O mapa-base é o coroplético da votação presidencial do primeiro turno de 2026 por município, com dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).[1]
Sobre ele foram lançadas quatro camadas. A primeira delimita as zonas de maior desmatamento, com base nas taxas PRODES Amazônia e Cerrado e nos alertas DETER do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE, 2025), no Relatório Anual do Desmatamento do MapBiomas (2026), que valida alertas de 2019 a 2025, e no ranking municipal do Imazon.
A segunda reúne os conflitos registrados pela CPT em 2025: ocorrências por unidade da federação na Amazônia Legal, assassinatos e municípios com mais conflitos por terra (CPT, 2026a; 2026b). A terceira indica as zonas e os vetores de expansão do agronegócio (Matopiba, AMACRO, eixo da BR-163, Paragominas, lavrado de Roraima, cerrado do Amapá e Sealba), definidos pela coincidência entre desmatamento de vetor agropecuário e instrumentos de planejamento estatal, como o Plano de Desenvolvimento Agropecuário do Matopiba (Brasil, 2015).
A quarta traz o monitoramento da Rede de Agroecologia do Maranhão (RAMA), da Federação dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares do Maranhão (FETAEMA) e do Laboratório de Extensão, Pesquisa e Ensino de Geografia da UFMA (LEPENG), que validou 255 notificações de pulverização de agrotóxicos sobre 209 comunidades de 33 municípios no primeiro semestre de 2026 (Muniz et al., 2026).
Os resultados eleitorais são os da totalização oficial do TSE, por unidade da federação e por município,[2] confrontados com cruzamentos já publicados entre esses dados e o desmatamento (ClimaInfo, 2026; Sumaúma, 2026) e a produção agrícola municipal do IBGE (Camargo, 2026). As camadas cobrem 2019 a 2026, e o voto é de um único turno. As zonas foram traçadas de forma esquemática, sem precisão municipal. O resultado demonstra coincidência espacial, não causalidade. A Figura 1 reúne a sobreposição.
Resultados
Na Amazônia, a fronteira agrícola[3] votou na extrema-direita. A coincidência mais nítida está no arco do desmatamento. Flávio Bolsonaro teve suas maiores votações estaduais em Roraima (71,06%), Rondônia (67,45%), Mato Grosso (65,15%) e Acre (64,56%), estados inteiramente ou em grande parte na faixa de expansão (Hora Brasil, 2026).[4] Venceu em 8 dos 10 municípios da Amazônia Legal que mais desmataram desde 2016, segundo cruzamento de dados do TSE e do INPE (ClimaInfo, 2026).
Em Novo Progresso (PA), palco do “Dia do Fogo” de 2019, obteve 84,13% dos votos válidos, a segunda maior proporção do país (Purchio, 2026); em São Félix do Xingu, 72%; em Altamira, 63%. Nos três casos, superou a votação de Jair Bolsonaro no primeiro turno de 2022 (79,6%, 63,1% e 57,7%) (Portela, 2022).
As exceções do grupo, Lábrea (AM) e Portel (PA), onde Lula venceu com 57% e 62%, são municípios de reservas extrativistas, assentamentos agroextrativistas e população ribeirinha. Em Senador José Porfírio (PA), onde estão a Terra Indígena Ituna/Itatá e o projeto minerário da Belo Sun, Flávio fez 61%, e Lula caiu de 52% para 35% em relação a 2022 (Sumaúma, 2026).

A violência segue o mesmo desenho. Em 2025, a Amazônia Legal concentrou 824 dos 1.593 conflitos do país e 16 dos 26 assassinatos. Rondônia e Pará tiveram sete mortes cada, e fazendeiros foram apontados como responsáveis por 14 delas. Só na AMACRO, divisa entre Amazonas, Acre e Rondônia, houve 186 conflitos por terra em 27 municípios e seis assassinatos (CPT, 2026b). Pará (49,91%) e Amazonas (48,23%), onde Lula venceu por margens estreitas, não desmentem o padrão: o mapa mostra em azul o sul e o sudoeste paraenses, ao longo da BR-163 e da Transamazônica, e o sul amazonense, enquanto o vermelho predomina no nordeste paraense, no Marajó e nas calhas dos grandes rios. Na Amazônia Legal como um todo, Lula venceu em 429 municípios e Flávio, em 342 (Sumaúma, 2026).
No Cerrado, a associação muda de forma. O Matopiba reuniu oito dos dez municípios que mais desmataram o país em 2025 (MapBiomas, 2026), e o Maranhão teve a maior supressão do bioma (2.006 km² no PRODES Cerrado 2025). Ainda assim, Maranhão (63,99%), Piauí (70,99%) e Bahia (66,17%) deram ampla vitória a Lula (Hora Brasil, 2026). O voto em Flávio aparece ali como enclave, e o enclave tem endereço.
No Maranhão, ele venceu em 6 dos 217 municípios, Açailândia (55,92%), Balsas (55,46%), Imperatriz (53,16%), Estreito, Itinga do Maranhão e São Pedro dos Crentes (Imirante, 2026; O Tempo, 2026a; 2026b), todos no oeste e no sul do estado, na faixa que o mapa marca como fronteira do agronegócio: soja nos Gerais de Balsas, pecuária, siderurgia e eucalipto na região Tocantina e na divisa com o Pará.
Na Bahia, venceu em 4 dos 417 municípios: Luís Eduardo Magalhães (62,03%), polo urbano da soja no oeste, e Buerarema (51,69%), Itamaraju (51,67%) e Teixeira de Freitas (49,51%), no sul e no extremo sul, região de disputa fundiária com o povo Pataxó (Alô Alô Bahia, 2026).
A tendência se acentua nos polos do agronegócio. Nos dez municípios de maior valor da produção agrícola do país, Flávio somou 23,6% mais votos que Jair Bolsonaro em 2022, e Lula perdeu 16,5% dos seus; nos polos mato-grossenses, Flávio passou de 70%. Mesmo onde Lula venceu, como em Formosa do Rio Preto (BA), a votação do candidato do PL subiu de 25,61% para 37,81% (Camargo, 2026).
Considerações finais
Na Amazônia, desmatamento, violência e voto em Flávio Bolsonaro coincidem nas frentes de expansão consolidadas: Rondônia, Acre, Roraima, norte de Mato Grosso, sul do Amazonas e sul do Pará.
No Matopiba e no Nordeste, a coincidência se restringe aos núcleos da fronteira, como Balsas, Imperatriz, Açailândia e Luís Eduardo Magalhães, num território cujo eleitorado votou Flávio Bolsonaro.
A queda do desmatamento amazônico após 2023 não reduziu a letalidade no campo, já que os assassinatos dobraram em 2025, a partir da articulação de grupos extremistas que atuam no campo brasileiro e permanecem impunes.
Em 2025, 26 pessoas foram assassinadas no campo, o dobro do ano anterior, e fazendeiros aparecem como responsáveis por 14 das 16 mortes na Amazônia Legal (CPT, 2026). Isso não é exceção: dos 1.496 casos de assassinato no campo registrados pela CPT entre 1985 e 2018, com ao menos 1.973 vítimas, só 120 foram a julgamento, 8% do total (Repórter Brasil, 2021).
Notas
[1] Os tons de vermelho indicam vitória de Lula e os de azul, de Flávio Bolsonaro; a intensidade acompanha a margem de vitória no município, não o percentual exato.
[2] Os percentuais estaduais e municipais são os da totalização oficial do TSE, consultados nas compilações indicadas, que reproduzem os arquivos do portal de resultados. Para uso em peça ou parecer, recomenda-se a conferência direta em resultados.tse.jus.br.
[3] A fronteira agrícola é entendida aqui não apenas como a linha de avanço da produção agropecuária sobre áreas de vegetação nativa, mas como um espaço social de conflito. Martins (2009) distingue a frente de expansão, marcada pela ocupação de posseiros e camponeses, da frente pioneira, em que a terra se converte em mercadoria e chegam a empresa capitalista, o mercado de terras e o Estado. O autor vê a fronteira como lugar de alteridade e de conflito entre sujeitos com temporalidades históricas distintas. Velho (1976) a analisou como fronteira em movimento, associada à expansão autoritária do capitalismo no campo. Becker (1990) a define como espaço ainda não plenamente estruturado, cuja ocupação é induzida por políticas estatais de crédito, infraestrutura e regularização fundiária. Nesse sentido, a fronteira agrícola contemporânea, expressa no Matopiba, na AMACRO e no eixo da BR-163, é também uma frente de espoliação dos territórios de povos e comunidades tradicionais (Harvey, 2004).
[4] Percentuais de votos válidos. No total nacional, Flávio Bolsonaro obteve 47,03% e Lula, 45,16%, e os dois disputam o segundo turno em 25 de outubro de 2026 (TSE, 2026).
*Diogo Diniz Ribeiro Cabral é dvogado do Movimento Xingu Vivo para Sempre. Mestre em Desenvolvimento Socioespacial e Regional (PPDSR/UEMA). Associado na Sociedade Maranhense de Direitos Humanos

